Justiça dá 60 dias para time de futebol de várzea desocupar área do Campo de Marte, na Zona Norte de SP
31/03/2026
(Foto: Reprodução) Campo de futebol de várzea no antigo reduto do Campo de Marte, que será transformado em parque
Reprodução/TV Globo
Uma decisão judicial da última quinta-feira (26) deu 60 dias para o time de futebol de várzea Cruz da Esperança desocupar sua sede, localizada no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. A área que fica ao lado do aeroporto de mesmo nome se tornou alvo de disputa após concessão do terreno do município à iniciativa privada, em 2025, para implementação de um novo parque.
Antes do início das intervenções, porém, a prefeitura precisa entregar o espaço desocupado à empresa. Por isso, pediu à Justiça a reintegração de posse e a demolição das construções existentes no local. O clube, que é famoso por promover aos fins de semana o tradicional Samba do Cruz, utiliza uma área com cerca de 15 mil m² para suas atividades culturais e esportivas.
"Alerto desde já que o prazo fixado deve ser compreendido como tempo destinado à organização e efetivação da desocupação, e não como sobrevida à ocupação irregular", diz trecho da determinação assinada pelo juiz Bruno Santos Montenegro, que também impôs multa diária de R$ 5 mil e autorizou o uso de força policial em caso de descumprimento.
Prefeitura assina contrato do Parque Campo de Marte hoje (22/01)
O terreno de 385 mil m² onde ficará o parque é um reduto do futebol de várzea paulistano desde a década de 1970. Dos seis times que mantinham atividades no local, um já foi despejado e outros quatro aceitaram acordo para desocupar seus campos em troca de poderem utilizar o espaço no futuro. Segundo a prefeitura, o Cruz da Esperança se desligou da associação responsável pela negociação e passou a ignorar as notificações sobre a desocupação do terreno.
Segundo o presidente da agremiação, Antônio de Jesus Marcos, conhecido como Tio Toninho, o modelo proposto pela prefeitura e pela concessionária garantia apenas o uso do campo de futebol, colocando em risco a principal fonte de renda do clube. "A gente ficou sabendo que só ia ter o campo. A nossa cultura, o nosso samba, isso ia tudo por água abaixo. E é através disso que a gente mantém o time. A gente precisa do samba, precisa do bar", explicou ao g1.
A proposta de gestão compartilhada do espaço após a concessão também não agradou. De acordo com Toninho, o clube deixaria de ter controle sobre o campo, podendo utilizá-lo apenas em dias específicos. "Nos demais dias, o campo não vai ser nosso. A concessionária que está investindo vai querer retorno, então a gente perde esse espaço no dia a dia. E aí acaba a cultura", argumenta.
Mapa destaca área onde será implementado o Parque Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo
Reprodução/TV Globo
Fundado em 1958 por um grupo de taxistas da região da Casa Verde, o Cruz da Esperança tinha um acordo com a Aeronáutica, antiga proprietária do terreno – em 2022, a posse da área passou para o município. Diante da ameaça de despejo, o grêmio esportivo lançou um abaixo-assinado pedindo o reconhecimento como patrimônio cultural da cidade. Até esta segunda-feira (30), o documento tinha 25 mil assinaturas virtuais.
Em sua defesa na ação judicial, o time argumentou que o espaço é historicamente vinculado à convivência comunitária na região, especialmente à cultura afro-brasileira. O Ministério Público deverá analisar, no prazo de 10 dias, se a área em questão atende requisitos de proteção e se a implantação do parque inviabiliza a manifestação cultural.
A gestão Ricardo Nunes (MDB), por sua vez, argumentou nos autos que a permanência do Cruz da Esperança cria obstáculos diretos ao cumprimento de obrigações contratuais assumidas com a concessionária Campo de Marte, formada pelos mesmos donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal.
Grupo se apresenta no Samba do Cruz, na Zona Norte de São Paulo
Divulgação/G.E.R Cruz da Esperança
"A persistência da ocupação irregular expõe o erário ao risco concreto de pleitos de reequilíbrio econômico-financeiro por parte da concessionária e de sanções contratuais, configurando situação que, se não revertida com brevidade, poderá tornar-se de difícil ou impossível reparação", diz trecho da argumentação jurídica.
O contrato de concessão prevê investimento estimado em R$ 202 milhões para a construção do Parque Campo de Marte. A empresa responsável poderá explorar o espaço comercialmente pelos próximos 35 anos.
Procurada, a concessionária disse que manteve diálogo com todos que se dispuseram a conversar e que o novo parque será projetado para receber "tanto os que já frequentaram a área, quanto os que passarão a fequentá-la após a inauguração". Já a Prefeitura de São Paulo defendeu que o novo espaço de lazer será referência na Zona Norte, beneficiando cerca de 300 mil pessoas.
Muro da sede do clube de futebol de várzea Cruz da Esperança
Reprodução/TV Globo
*Sob supervisão de Cíntia Acayaba