Professor e ex-presidente de cooperativa: quem é o fazendeiro que manteve casal de idosos em escravidão moderna por 20 anos no Paraná

  • 16/06/2026
(Foto: Reprodução)
Condição análoga à escravidão por 20 anos: casal de idosos teve que morar em paiol Elton Lange, fazendeiro que manteve um casal de idosos em condição análoga à escravidão por 20 anos em uma propriedade rural em Guarapuava, na região central do Paraná, é professor de duas escolas públicas estaduais da cidade e ex-diretor-presidente de uma cooperativa agroindustrial. Na quarta-feira (10), agentes de fiscalização descobriram que ele mantinha um idoso de 84 anos e a esposa dele, de 66, em "condições degradantes" e sem direitos trabalhistas adequados na própria fazenda. Relembre detalhes mais abaixo. ✅Siga o canal do g1 PR no WhatsApp A RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, tentou entrevistar Elton pessoalmente no dia em que ele firmou um acordo para pagar R$ 70 mil de rescisão e indenização ao casal, mas ele recusou e não se manifestou sobre a situação. Nesta terça-feira (16), o g1 voltou a entrar em contato com ele, mas não teve resposta até esta publicação ir ao ar. Elton Lange é aucsado de ter mantido um casal de idosos em condição análoga à escravidão por 20 anos Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) e Divulgação Trabalho análogo à escravidão: entenda o que é, como reconhecer e como denunciar Dados do Portal da Transparência revelam que o homem recebe quase R$ 20 mil de remuneração bruta por mês do Governo do Paraná pelo cargo de professor em duas unidades: no Colégio Estadual Professor Pedro Carli, que fica na Vila Bela, e na Escola Estadual Cesar Stange, do Bairro Boqueirão. Ele é concursado desde 2003 e, recentemente, chegou a ser diretor escolar. O g1 questionou a Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR) sobre qual disciplina Elton dá aula e se atualmente ele trabalha fora de salas de aula, mas o órgão se recusou a responder. Em nota, a Seed-PR afirmou apenas que tomou conhecimento da denúncia envolvendo um servidor da rede estadual de ensino e destacou que "os fatos relatados não ocorreram no exercício das funções desempenhadas pelo servidor". "Diante disso, a Secretaria acompanha o caso e aguarda a conclusão dos trâmites e procedimentos conduzidos pelos órgãos competentes. A secretaria destaca que repudia quaisquer práticas que violem a dignidade e os princípios dos direitos humanos", complementa o texto. Na Cooperativa Agropecuária Mista de Guarapuava (Coamig), coletivo de Guarapuava dedicado a fortalecer a agricultura familiar, o fazendeiro foi diretor-presidente na gestão de 2023 a 2026. Ele deixou o cargo em março. Pelas redes sociais, a Coamig se manifestou sobre o caso dizendo que soube da situação por meio da imprensa. Afirmou, também, que reconhece a gravidade dos fatos e que não compactua com "qualquer prática que viole a dignidade humana, os direitos trabalhistas ou os princípios legais que regem as relações de trabalho". Na nota, a cooperativa também destacou que a situação não possui relação com as atividades, operações, unidades, colaboradores e cooperados da instituição, tratando-se de fato atribuído à esfera particular do fazendeiro. "Com uma trajetória construída sobre os princípios do cooperativismo, da responsabilidade social, do respeito às pessoas e do compromisso com o desenvolvimento da região, a Coamig reforça que pauta sua atuação pela ética, pela legalidade e pela valorização do trabalho digno. A cooperativa respeita e acredita na atuação dos órgãos competentes", finaliza. Leia também: 'Adoração perpétua': Freiras que vivem atrás de grades se revezam para rezar 24h por dia Paraná e outros dois estados: Caçadores são alvo de megaoperação policial Fiscalização: Caminhoneiro drogado é pego com 2,5 toneladas de maconha Escravidão moderna no Paraná Casa e banheiro ficavam em estruturas separadas Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) O caso veio à tona após o casal de idosos ser resgatado na quarta-feira (10) pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O resgate foi feito na localidade de Combrão, nas proximidades da PR-170. O órgão afirma que o idoso de 84 anos atuava como trabalhador rural na propriedade e foi colocado para morar, com a esposa de 66 anos, em um paiol com estrutura apodrecida que foi improvisado como casa, com banheiro e chuveiro externos. De acordo com os auditores-fiscais do trabalho, as vítimas não tinham água encanada e dependiam de terceiros para conseguir comida, já que enfrentavam dificuldades para se deslocar até os centros urbanos. "Além das condições degradantes, foi constatada a supressão de outros direitos trabalhistas, como a falta de registro, não concessão de férias anuais remuneradas, não pagamento de décimo terceiro salário, remuneração em valor abaixo do piso regional", afirmam. Ainda de acordo com os representantes do MPT, no âmbito administrativo, 14 irregularidades foram identificadas. No âmbito criminal, o fazendeiro pode ser investigado pela Polícia Federal. No entanto, após o flagrante a corporação disse ao g1 que ainda não tinha sido notificada sobre a situação. Segundo José Luiz Queiroz, auditor-fiscal do trabalho, o casal foi atendido pela equipe de assistência social do município e encaminhado à casa de um filho, que cresceu no mesmo lugar com os pais e, depois, foi morar na cidade. Alojamento com risco de desabamento, incêndio, asfixia e intoxicação Alojamento estava com estrutura danificada, segundo fiscais Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) Segundo os auditores, o alojamento improvisado pelo casal corria risco de desabamento, incêndio, com consequente asfixia e intoxicação em razão da estrutura fornecida pelo empregador. O local foi totalmente interditado. "A residência apresentava sinais avançados de deterioração, com partes da estrutura apodrecidas, frestas nas paredes e risco de comprometimento da estabilidade da edificação. [...] Lenha e materiais combustíveis eram armazenados junto ao fogão a lenha, e havia instalação inadequada de botijão de gás no interior da residência." A equipe também verificou que o casal de idosos improvisou três estruturas diferentes para viver, todas construídas em madeira: um paiol antigo foi adaptado como casa e, a 20 metros, o trabalhador construiu um banheiro. Em uma estrutura separada, foi improvisado um chuveiro. Alojamento estava com estrutura danificada, segundo fiscais Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) "O banheiro utilizado ficava localizado fora da residência, a cerca de 20 metros de distância. A estrutura sanitária havia sido construída pelo próprio trabalhador, sem fornecimento de instalações adequadas pelo empregador. [...] O local destinado ao banho também apresentava condições precárias, com paredes abertas, frestas, instalações elétricas improvisadas e abastecimento irregular de água." Ainda de acordo com os auditores, a água utilizada para consumo e atividades domésticas era captada diretamente de nascentes e cursos d'água da propriedade por meio de instalações improvisadas pelo próprio trabalhador. O casal relatou que realizava a fervura da água antes do consumo, sempre que possível. Durante a fiscalização, ainda foi constatado que o empregador não fornecia equipamentos de proteção nem outros insumos necessários para a execução das atividades desenvolvidas na propriedade e que o casal corria riscos de picadas de animais peçonhentos e doenças do sistema respiratório, "em virtude da falta de condições de fechamento e vedação de paredes das edificações, com vãos que não ofereciam proteção contra condições atmosféricas de frio e vento ou acesso de animais peçonhentos". Denúncias Casos de trabalho análogo à escravidão podem ser denunciados de forma anônima e segura por meio do Sistema Ipê, disponível online. Acesse neste link A plataforma foi lançada pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), e integra as ações permanentes da Auditoria-Fiscal do Trabalho no enfrentamento ao trabalho escravo contemporâneo. Vídeos mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Campos Gerais e Sul.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2026/06/16/professor-e-ex-presidente-de-cooperativa-quem-e-o-fazendeiro-que-manteve-casal-de-idosos-em-escravidao-moderna-por-20-anos-no-parana.ghtml


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